Ovelhas Incandescentes

Ovelhas Incandescentes

Páginas

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Era um cortiço!


A porta do casarão era pesada e parecia de ferro.
Era um cortiço! Desses que cada família ocupa um quarto e o banheiro é compartilhado.
Eles moravam do lado esquerdo. Esquerdo, como o lado que o filho menor escreve.


Eram três: a mãe, a filha mais velha e o filho menor (o que escrevia com a mão esquerda).
Tinha mais um filho, mas daremos este como emancipado.
Era um casarão bonito. E ainda é... para quem sabe ver.

 

Ainda está lá, na Rua do Carmo, N°198, na Sé, ao lado da Igreja Nossa Senhora da Boa Morte (igrejas podem ter nomes tão estranhos). Rua que já abrigou belas damas, bonitas e alegres (aos olhos de quem vê), mas não do tipo que você gostaria perto de suas filhas. Talvez ainda estejam lá, mas eu não vi nenhuma. Talvez, não sejam mais as mesmas damas de antes, da época do casarão. E talvez, isso me dê outra história. Por hora, voltemos ao casarão.
Dizem que foi construído em 1910, mas o tempo passa para todos... e para tudo também.
Eu só o conheci há um mês atrás, quando andava com meu pai por ali. Eu sempre soube que as condições nunca foram das mais favoráveis, mas eu nunca imaginei a própria condição.
Eu nunca morei numa casa dessas. Eu nunca precisei. Eu nunca tive tudo o que eu queria, mas nunca me faltou nada.
Eu não via muito meu pai e minha mãe. Não porque eles não quisessem, mas porque tinham que trabalhar para sustentar a família.
Eu costumava ficar doente muitas vezes, e era muito ruim. Mas o bom disso é que eu via minha mãe mais vezes.
Eu tinha medo do escuro porque eu via um monte de coisas que eu não entendia bem o que era e não queria entender porque eu tinha medo. E meu pai deixava a luz do corredor acesa para mim.
Eu tomava um monte de injeções e não sabia porque eu chorava tanto, mas eu sempre saía de lá com uma seringa para brincar e uma caixinha de lápis coloridos de chocolate.
Eu acordava no meio da noite e tinha vergonha de pedir para dormir com a minha mãe, mas quando ela acordava e me via andando no quarto, me chamava para deitar com ela.
As pessoas não podiam me entender. Não viam o que eu via. E não viam como eu. Mas todo mundo que morou comigo era da minha família.

 

Da família de três pessoas que morou ali, eu conheci as três. Mas nunca conheci esse casarão. Eles já moravam em outra casa quando os conheci.
A mãe deles sempre me dava dinheiro e me fazia camisolas. E na maioria das vezes, me chamava de "minha filha".
A filha mais velha me emprestava revistinhas e tinha tantos gatos e cachorros, que eu poderia passar horas com todos eles, e deve ser por isso que eu gosto tanto de animais.
E agora que eu pensei nisso, pode ser por isso, também, que o filho mais novo gosta de animais e também gosta de revistinhas. E foi ele quem me deu minhas primeiras revistinhas. Foi assim que eu aprendi a ler, eu era bem pequena. Ainda nem tinha entrado na escola, mas já sabia ler.
Do pai deles, eu não sei. Porque eu era "muito mais pequena" quando ele morreu. Mas sei que, na verdade, ele era o padrasto. O pai deles, mesmo, morreu quando o filho mais novo era pequeno.
Mas eu sei que o padrasto tinha um problema com bebida e, nas suas crises, jogava as panelas de comida na parede.
Triste, não? Eu não sei se ele morou no casarão, mas seria bem típico de família que mora em cortiço. O marido está bêbado e atira o que vê pela frente nas paredes.


Do casarão, eu não sei nada. Não sei qual a história dele e nem saberia, mesmo conhecendo essa família que morou nele. Nunca o teria visto, se não fosse o passeio que dei com meu pai naquele dia.
Não fosse por isso, nunca teria visto esse casarão e nem ouvido a história que ele me contou.
Tudo fala, basta sabermos ouvir.
E esse casarão falou comigo naquele dia.

  

Isso poderia assustar alguns, ele já não é mais a bela casa que certamente já foi. Hoje é só mais um casarão abandonado e, teoricamente, mal-assombrado.
E ele me falou que heróis também existem fora das revistinhas. E que alguns deles, saem de cortiços como ele.


Disse que o filho mais novo dessa família que morou aí, era um super-herói disfarçado, mas só duas pessoas sabem disso.
Como herói, ele atende pelos nomes de "Paizão", "Bob-Pai" e "Meu pai, meu pai, meu pai". Casou-se com uma, também, heroína, a "Poderosa Zux", e tiveram duas filhas.
E você pode achar que isso é uma brincadeira, mas não é. Nem a parte do Herói, nem a parte da "Poderosa Zux", e nem a parte das duas filhas.
Uma gosta de experimentos, a outra gosta de escrever.

14 comentários:

  1. Certos textos me despertam admiração... me emocionam... me fascinam... outros me deixam sem fôlego e sem palavras...

    Muito, muito lindo Amiga !!!

    =)

    ResponderExcluir
  2. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
  3. Para mim não faltou nada bebê rs... O problema é que estou trabalhando rs!!
    Te amo!!
    Bjo!!

    ResponderExcluir
  4. AMEI seu post! Conteúdo histórico, repleto de referências que dão um saudosismo na gente, sabe? Eu tb tenho um herói assim, que me fez ter uma história parecida com a sua. A diferença é que eu me lembro de uma foto dele menino, com um cachorro, perto de uma Igreja, que minha avó fazia ele ir sempre, ver a missa. Me deu uma saudade de quando eu era criança... Ficou a fantasia em minha mente agora, e receberei essas lembranças de braços abertos. Mais lindo será quando eu passar pela rua bom pastor, aqui no Ipiranga, e observar as casas antigas, lembrar do seu post, de quanta história tem por aí, de quanta riqueza de detalhe está perdida por SP atrás de muros antigos...! Que sensação boa vc me trouxe!!!!

    ResponderExcluir
  5. Ai, Rê! Eu demoraria meses pra fazer uma construção de texto igual a essa. Ainda mais com essa riqueza de detalhes.

    Adorei, assim como também adoro os outros.

    Beijos.

    ResponderExcluir
  6. Que lindo post. Amo histórias de família. São nossas raízes e uma árvore só pode crescer se tiver raízes fortes...
    Seja feliz. bjs

    ResponderExcluir
  7. Este artigo foi extremamente interessante, especialmente porque eu estava à procura de ideias sobre assunto nesta quinta-feira passada.

    ResponderExcluir
  8. OLá!

    Você chegou até meu blog e eu ao seu pelas mãos de uma pessoa em comum ... a Vanessa, que é minha irmã. Fico feliz que gostou do meu blog, acabei de começar e ainda estou apanhando ... rsrsrs

    Adorei esse seu texto sobre o cortiço, aliás, adoro seu blog. Vou te pedir umas dicas ! rsrsrs

    Cristina

    ResponderExcluir
  9. Re, não sei o que dizer. E olha que eu ficar sem fala é coisa praticamente impossível. Essas coisas que envolvem relação de pai e filha sempre me pegam, por uma questão de razões particulares. Absolutamente sempre, me emociono. E nesse caso, talvez por te querer tão bem, e te "conhecer", ainda que de longe, a emoção foi maior. Querida, tu és sensacional, e eu sou tua fã, viste?
    Beijos. Fique bem.

    ResponderExcluir
  10. O que um bom post. Eu realmente gosto de ler esses tipos ou artigos. Eu não posso esperar para ver o que os outros têm a dizer.

    ResponderExcluir
  11. Amiga, seu texto é simplesmente emocionante! Muito bem escrito. Me dá orgulho por ter conhecido você. Minha mãe tem história parecida, mas eu não saberia colocar desta forma...tenho medo de tornar piegas. Mas se já te admirava, com esse texto nem sei o que dizer! Vou mostrar aos meu pais tb.
    Bjinhoooo

    Alê
    @ale_rms
    http://ale-dreams.net

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ah, q piegas q nada, Lelê. Amor nunca é piegas. Orgulho (nesse caso) tb não. Bjs

      Excluir
  12. Q foto linda de vcs... Incrível serem tão diferentes e tão iguais

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Pois é, Balny, igualmente diferentes ou diferentemente iguais. =]

      Excluir